terça-feira, 17 de maio de 2016

Março de 2015 - Surgiram os coxinhas.

Eu juro que durante toda a minha vida fiz uma tremenda força para tentar pensar diferente do meu pai e do meu avô. Não eram homens da direita, mas ambos desde que me lembro dos fatos contestavam a pessoa do senhor Luis Inácio Lula da Silva. Poxa, o cara era do povo, bravo e cativava tanta gente. Meu avô preferia conversar sobre os romances do Machado de Assis à política. Meu pai tirando a medicina, gostava de Fórmula 1, dos artistas plásticos e cineastas alemães, de alguma coisa de música brasileira e dizia-se "apolítico". Além disso, não votavam no PT de forma alguma.
Na escola tentei entender o movimento das bandeiras vermelhas e o orgulho daquela gente toda que pedia um partido do povo no poder. 
Eu não tinha partido, era gremista e torcia pelo Piquet (culpa do meu pai). Quando o Senna morreu, chorei e revoltado com o paternalismo pensei em votar no PT.

Alguns colegas na época muito politizados arriscavam-se com comportamentos rebeldes anti imperialismo americano. Eu ficava quieto, pois queria aprender a tocar guitarra como o Jimi Hendrix e assim como boa parte da minha geração pré-TV a cabo, muito assistia aos filmes yankes na sessão da tarde e curtia o romance de Kevin Arnold e Winnie nos subúrbios americanos exemplares da série "Anos Incríveis".
O Pessoal depois da aula ia ao comitê do PT no centro da cidade e eu, gastar os tênis da Penalty jogando futebol na praça.
Sentia-me um coxinha em meio a cidadãos mais politizados, mais cultos e donos da verdade.

Lembro alguns lampejos de esquerda que passaram pela minha cabeça quando por vezes desafiei os conhecimentos do meu pai "fascista" enquanto empunhava algum livro que havia "descoberto" de ouvido ao observar a conversa dos amigos superiores.
Aquela teoria toda de comunhão dos bens entre povo e estado já naquela época não me era tão atraente quanto era para os colegas, mas eu como um bom coxinha ficava quieto.
Porto Alegre foi uma das incubadoras do imperialismo petista no país. Assim como o Rio Grande foi do fascismo com Vargas. Eu vivi os anos dourados da idolatria ao PT e muitas vezes sentia-me um estranho, pois mesmo fazendo força, algo me afastava da simpatia pela cor vermelha e por aquela sensação de idolatria ao Luis Inácio. O FHC nada mais era do que o mentor da minha primeira cédula de papel de 50-alguma-coisa (no caso Reais). Não idolatrava nenhum político. Eu fui um tremendo coxinha. Acabei nunca votando no PT.
Um dos meus melhores amigos era radical. Discutir política com ele e com o pai dele era algo próximo do impossível, porém eram grandes gremistas e eu os perdoava. Assim como perdoava meu tio colorado e PTista. Caraca: colorado "ê" Petista! Mas eles eram legais e eu não via motivos para não respeitá-los.
Enquanto isso, lembro bem de contra argumentar as teorias políticas do meu avô professor de letras e advogado apaixonado pelos livros, que depois da aposentadoria foi trabalhar como bibliotecário em uma escola pública.
Eu vim da elite, meu pai médico anti-PT que gostava de arte alemã e meu avô advogado-bibliotecário. Elite. Talvez por isso fui tão coxinha. Talvez por isso fui tão avesso às teorias soviéticas dos corredores da escola. Ao invés de ler Marx meu avô encheu me de coleção Vagalume e para não me deixar um completo alienado selecionou alguns malditos permitidos para minha faixa etária curiosa. Nada muito politizado.
Lembro de inspirar-me nas linhas de "Encontro Marcado" e no existencialismo do personagem Eduardo Marciano criado pelo mineiro Fernando Sabino. Enquanto isso os engajados colavam estrelas nas classes. Eu desenhava ora ondulações havaianas ora o Jardel metendo gol de cabeça. Nunca acertei. Eu e meu existencialismo coxinha. Nunca votei certo. Mas nunca fui PTista. Quando muito, questionei o sistema após algumas leituras de Aldous Huxley ou Graciliano Ramos. Aquela cadela Baleia sofria pacas.
Agradeço a todos que contribuiram para que eu pudesse ser um coxinha, pudesse gostar tanto dos americanos quanto dos franceses. Para que eu pudesse estranhar Guevara e ao mesmo tempo abraçar os comunistas da escola.
Da minha parte podem ficar tranquilos que não vos odiarei, não vos culparei por tudo. Não acho que a culpa é de quem votou no PT. A culpa é da imaturidade política da nação e do não exercício da cidadania fora de manifestações. 
Fosse a nação azul ou vermelha, Senna ou Piquet. Dificilmente estaríamos muito melhores.

Vou continuar rindo das piadas do pessoal da Porta dos Fundos. Vou continuar tolerando o Jean Willys independente de concordar ou não. Tolerarei o Duvivier, mas também continuarei a questionar a capacidade do Big Brother Willys de ocupar um cargo em Brasília.
Continuarei seguindo meus amigos concursados-funcionários do governo que ainda resistem em atacar os coxinhas. Assim como meus queridos professores de história.
Não vou mudar nada de hoje para amanhã. O existencialismo foi até então minha política, mesmo sem eu saber, e agora entendo a importância da reflexão. Seja, então, ela praticada em cada lar brasileiro quanto a política, quanto a democracia, quanto a cidadania, mas que seja.
Só façam me um favor, se não for deselegante da minha parte pedir tal coisa: inventem outro apelido para a classe média, ou então sigam assando coxinhas e bebendo Kaiser enquanto discutem a Utopia eternamente.
Ok, se ainda não for pedir muito, apreciaria se vocês me dessem o direito de querer ver o PT somente nos livros de história daqui para frente, e caso queiram ajudar, esqueçam a ideologia e vamos prender os ladrões independente de partido.

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