Rio de Janeiro, 28 de Janeiro de 2015.
Hoje um carismático ascensorista do hospital parou-me no corredor enquanto conversava com um grupo de pacientes:
- Dr. Gaúcho, você conhece Canguçu?
- Mah tchê, é lá pelas minhas bandas do Sul, respondi brincando.
- Você conhece a Miss "gordinha" de Canguçu, Dr.?
Eu não fazia idéia do que falavam. Então, uma paciente em seu pijama azul e acesso venoso periférico a tira colo, num misto de orgulho e identificação pessoal, mostra me o vídeo em seu smartphone.
Uma moça no auge da juventude, desfilando com orgulho no concurso Garota Verão (tradicional competição de jovens beldades gaúchas) seu biotipo fora dos padrões. Absolutamente fora dos padrões do concurso.
A candidata número 11 desfilou confiante e realizou um sonho que provavelmente a acompanhava desde a infância (suponho eu). Não tornou se esteticamente mais ou menos aceita pela sociedade com o feito. Mas também não perdeu viagem.
Não pesquisei, mas com certeza já devem rolar pela rede resenhas e tratados psicanalíticos a cerca dos padrões brasileiros de beleza e o quanto as mulheres fora dos padrões de magreza são oprimidas quanto a isso. Não tomo partido no momento quanto ao certo ou errado de estar acima do peso. Solicito uma pausa para colocação de um ponto de vista que creio oportuno.
Estar acima do peso é mais do que estar fora dos padrões. Pode representar um problema de saúde. É de conhecimento geral que o sobrepeso e a obesidade são diferentes graus de uma mesma condição que muito mais do que a estética pode comprometer o funcionamento adequado do organismo.
Alterações metabólicas, vasculares, ortopédicas ... um sem número de afecções podem acometer o indivíduo tão somente por estar acima do peso.
No meu ponto de vista a discussão aqui não reside no estar bonita ou não. Ser apta ao convívio digno e a aceitação da sociedade ou não. Meu ponto é: a sociedade leiga (não graduada na área da saúde) é como um filho. Precisamos dar lhe o caminho pois na tenra idade o mesmo não tem a capacidade de discernimento entre certo e errado. Pais instruídos e competentes na arte de criar, zelam pelo seu filho e procuram refletir sobre as consequencias do sim e do não. Assim somos nós médicos quanto a educação da sociedade.
Do ponto de vista médico, eu congratulo a família da Miss e acima de tudo a própria menina. A autoconfiança é uma qualidade ímpar nos dias de hoje. O preconceito é um carma que muitos de nós carregamos e que pode sim desencadear doenças tão debilitantes quanto a obesidade desencadeia. Tão debilitantes quanto patologias de carne e osso. Doenças emocionais, por exemplo.
Congratulo a organização do evento por encarar com normalidade o desejo da menina. Além de colocar Canguçu no mapa nacional assim como ela (a indivídua) é, esta moça nos trouxe a reflexão sobre capacidade e auto suficiência quando falamos em realizações pessoais. Um exemplo de quanto a nossa mente é capaz de superar os obstáculos impostos pela sociedade e o quão é determinante à nossa saúde mental a tal autoconfiança.
Do ponto de vista orgânico, devo advertir. Aceite-se como você é? Ok. Lute contra o preconceito em geral. Não enquadre-se sem ter o porquê de enquadrar-se. Estar saudável é muito mais do que a forma e a lipodistrofia.
Além de louvar a autoconfiança, além de descobrir a geolocalização de Canguçu, que se conheça também o tênue limite entre a forma e a saúde. Entre o desejo de estar aceita pela sociedade e o impulso natural de sentir se bem como se é, ou em busca de aprimoramento se o desejo for genuíno. Que se entenda que beleza é relativa tanto para cima quanto para baixo (do ponto de vista ponderal) e que se aceite a condição de se estar fora do padrão ou lutando pela própria saúde, sem que isso obstrua o desejo de desfilar o corpo como ele estiver.
A autoconfiança é o antídoto para as afecções causadas pelos padrões até que atinjamos um estado mais saudável e porque não,
mais estético. Seguindo esta lógica fica aquela máxima que diz:
"Para ter um corpo de praia, basta ter um corpo ... e ir a praia."
O resto a gente resolve com paciência, disciplina, dedicação e, se indicado, com a mão do cirurgião. Com consciência e no seu devido momento.
Dale Canguçu!
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